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ETERNO DESFAZER 

 

 

Em uma tarde de sábado recebo a ligação de um advogado pedindo que eu acompanhasse até a casa de um cliente para fazer algumas imagens que poderiam ser utilizadas em um processo. Há alguns anos ele tentava evitar um despejo e desta vez não seria diferente, as fotografias deveriam comprovar que seu cliente vivia ali. Compramos um jornal do dia que deveria ser parte das fotografias como uma prova da data em que foram feitas. No caminho para o nobre bairro próximo da Avenida Paulista fui advertido de que a casa estava em uma situação de degradação, mal cheiro e acumulo de lixo, aquilo me atraiu, minha mente imaginou cenários fantasiosos, porém ao chegar me dei conta que minha imaginação não foi tão longe quanto a realidade. Já na calçada um forte cheiro penetrou minhas vias respiratórias, a fachada da casa quase centenária instigava a curiosidade, um velho carro servindo de apoio para diversas caixas e gatos que perambulavam e olhavam de escanteio os dois estranhos batendo palmas e chamando pelo morador. Sem resposta, aguardamos e depois de algum tempo o Homem surge distante na mesma calçada, em caminhar lento vi aquele corpo grande com sacolas nas mãos e barbas de ancião se aproximando, fomos apresentados e de imediato senti uma enorme simpatia e identificação com aquele ser estranho.

 

Após algum tempo de conversa nos convidou a entrar e fez a mesma advertência que o advogado havia feito, sua casa estava suja, com muito lixo e mal cheiro. Passamos pela lateral do velho carro e assim que o homem abriu a porta, o cheiro que já estava forte parecia insuportável, pensei em colocar algo no rosto, mas ficaria limitado em minha comunicação com o Homem, segui por um tempo respirando pela boca tentando abstrair o incomodo. O impacto do cheiro foi grande, mas instantaneamente veio o baque visual, entrei em um cenário de filme, um sonho, ou pesadelo, um conto surrealista ou uma pintura de um mestre louco. Fui fisgado por aquele espaço que parecia ao mesmo tempo morto/vivo e seu dono, que se mesclavam de forma siamesa, comecei a explorar e a cada passo na estreita trilha aberta no meio do caos a ansiedade de saber o que o próximo ambiente me revelaria. O ar rarefeito não me dava tempo de pensar, apenas tentava compor o mais rápido possível, temendo não conseguir completar o trabalho, querendo respirar ar fresco e ao mesmo tempo sendo puxado por aquele labirinto kafkaniano de lixo, fezes, gatos e tantos objetos que pareciam estar ali em repouso há décadas. A cada ambiente pedia que o Homem posasse diante da câmera com o jornal em mãos como havia recomendado o advogado, depois pedia que deixasse o jornal de lado em algumas situações, em outras o Homem me pedia que o fotografasse com alguns de seus gatos, que talvez chegassem às dezenas. Como em uma exploração a terras desconhecidas fui sendo conduzido pelo guia em sua obra prima, me mostrou cada cômodo do seu lar, me apresentou seus companheiros felinos e seus objetos tão importantes, nessa altura tudo já me parecia em perfeita harmonia em um eterno desfazer.

 

Ao voltar ao mundo “normal” e algumas noites de inquietação, não conseguia explicar com palavras o que havia visto, liguei para o advogado e pedi que consultasse o homem sobre a possibilidade de expor as fotografias que havia feito, obtive a permissão com a condição de não revelar seu nome, que a partir de então, acompanhado de suas fotografias se tornou apenas Homem. 

• 2018

• São Paulo-SP

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